sábado, 15 de maio de 2021

Cafė com Capoeira


 

Evento extraordinario que reuni mestres e convidados para uma bate papo bacana tudo em um ambiente agradavel e com muita capoeira

quarta-feira, 12 de maio de 2021


 A senzala foi uma forma de moradia de populações escravizadas, vindas do continente africano num movimento conhecido por Diáspora Africana, ou a vinda compulsória de sujeitos para o trabalho no sistema escravista na colônia portuguesa.

A forma de moradia das populações escravizadas, conhecidas por senzalas, estavam diretamente relacionadas à casa-grande. Enquanto os senhores e suas famílias viviam sob a casa-grande, escravizados serviam a eles e moravam em habitações com poucos recursos e conforto. Essa relação traz o aspecto da intimidade para as relações entre senhores e escravizados e são essas relações que Gilberto Freyre utiliza para pensar a formação da sociedade brasileira patriarcal em seu livro Casa Grande e Senzala, datado de 1933. O intelectual destacava que tanto a casa-grande como a senzala representavam um sistema político, econômico, social e sexual. As relações que se davam entre essas duas esferas serviam para equacionar as diferenças gritantes existentes na sociedade.

 

 Madame Satã: 

1 de junho de 2016, por Márcia Tirésias
Lifestyle
Madame Satã

O transformista que encantava o Carnaval carioca com suas fantasias. O bandido violento que matava com um único soco. O homossexual assumido que “caçava veados” na Lapa, segundo suas próprias palavras. O pai de família que cuidou de seis filhos. O malandro que enganava incautos e roubava todo seu dinheiro. O herói que não admitia violência contra os mais fracos e enfrentava desarmado a polícia. Ele era “Madame”? Ou era “Satã”? Ou ambos?

A ambiguidade era uma característica sua e ele sabia disso. Quando surgiu o apelido “Madame Satã”, no Carnaval de 1938, a dualidade instantânea cativou o público e desde então ele sabia que este seria seu título definitivo. Quando ainda não se falava abertamente em “transformista” e os termos drag queen ou crossdresser nem haviam sido criados, um malandro violento, bom de briga e ao mesmo tempo delicado, homossexual e com notável talento artístico se tornaria uma das figuras mais mitológicas da cultura carioca.

Rua Riachuelo

A famosa rua do Riachuelo, na Lapa carioca, em 1912 (Foto: Reprodução)

“Eu vim ao mundo junto com o século XX” era a forma como Satã, de nome João Francisco dos Santos, informava que havia nascido no ano de 1900, no interior de Pernambuco. Seus pais, descendentes de escravos, tinham dificuldades em sustentar uma família de 17 filhos. Quando seu pai morreu, em 1907, a mãe em desespero o negociou com um comerciante de cavalos em troca de uma égua. A promessa do homem era que o pequeno João Francisco trabalharia para ele e em troca receberia educação. Apenas a primeira parte do acordo foi cumprida e o menino seria analfabeto pelo resto da vida.

Cansado do trabalho escravo, o garoto fugiu em 1908 com uma mulher que lhe ofereceu emprego como ajudante de uma pensão no Rio de Janeiro. Logo João perceberia que não havia mudado muito sua situação. Ficava o dia inteiro limpando, lavando roupas e cozinhando, sem receber pagamento, educação ou algo semelhante a acolhimento familiar.

Aos treze anos, mais uma vez resolveu fugir e começou a perambular pelo bairro notívago da Lapa, dormindo nos degraus das casas de aluguel. Já nessa idade começou a ser inserido nos bacanais e teve sua iniciação sexual. Como ele mesmo dizia, “eu fui homem algumas vezes e fui bicha algumas vezes. Eu gostei mais de ser bicha”. Aos dezoito anos, homossexual assumido, foi contratado como garçom em um bordel.

Gradualmente o rapaz se encanta com a vida artística da Lapa, as cantoras de cabaré, o samba, a teatralidade e o glamour. Como uma típica drag queen dos tempos atuais, João gostava de imitar as grandes estrelas femininas da época. Sonhava em ser uma delas. Em 1928, uma jovem atriz com quem fez amizade conseguiu para ele um trabalho num show na Praça Tiradentes, centro do teatro de revista, onde fez sucesso com suas apresentações.

Foto de trupe de Teatro de Revista, Rio de Janeiro, em 1925

Foto de trupe de Teatro de Revista, Rio de Janeiro, em 1925 (Foto: Reprodução)

Desafortunadamente, a popularidade recém adquirida acabou por atrair atenção indesejada. Certa noite do mesmo ano, um guarda-civil resolveu provocar, chamando-o repetidas vezes de “veado”, com agressividade crescente até chegar a empurrões. João procurou manter a calma, seguindo o código social da época de “em guarda não se bate” e “bicha não reage”, mas em casa se enfureceu, pegou o revólver e voltou para encontrar o policial, matando-o na hora com um tiro.

“Legítima Defesa da Honra” foi o atenuante que lhe permitiu ficar apenas dois anos preso, mas o assassinato teve um impacto duradouro em sua vida. A súbita fama de “valente” fez com que surgissem oportunidades para o rapaz atuar como segurança em bares locais. O consequente envolvimento com jogo, cafetinagem, prostituição e pequenos roubos fez com que caísse na vida de malandro, adotando inclusive a indumentária própria: camisa de seda, sapato de salto, chapéu panamá e a inseparável navalha.

Madame Satã

Madame Satã (Foto: Reprodução)

Seu desempenho como segurança era elogiado pela forma como defendia as prostitutas, valendo-se em determinados momentos de golpes certeiros de capoeira com clientes violentos. A valentia também lhe trouxe vários incidentes com a polícia, que nunca lhe perdoou o incidente de 1928. Para complicar, não suportava a violência policial e intervinha quando via alguém apanhando. Surgia ali o mito do herói que defendia os oprimidos e encarava o opressor.

Em certo momento, exasperado com um delegado que frequentemente o perseguia, foi marchando sozinho até a delegacia, arrancou o homem de sua mesa e o nocauteou com uma sequência de golpes fortíssimos. Foi cercado pelos policiais e por pouco não morreu ali mesmo, sendo preso em seguida.

Em outro caso famoso, enquanto estava em um bar, um sargento apareceu subitamente e desferiu seis tiros nele, errando todos. Vendo que estava ileso, saiu em perseguição do militar e lhe deu uma sequência de navalhadas, uma delas no traseiro. E logo se espalhou a história de que havia dado uma navalhada na bunda de um sargento.

Ele mesmo alimentava seu próprio mito, ora inventado histórias sobre si, ora se calando sobre o que inventavam a respeito dele. Seu jeito ora viril, ora delicado, impressionava as pessoas e o tornava popular. E além disso, inventava hábitos peculiares. Por exemplo, gostava de se referir a si próprio como “a minha pessoa”. Dizia “a minha pessoa gostou muito disso”, “minha pessoa fez sucesso”

Entre idas e vindas da prisão, sua consagração artística veio em 1938. Uma vistosa fantasia de sua criação, inspirada num morcego do nordeste do Brasil e lindamente decorada com lantejoulas, foi a campeã do baile de Carnaval do Teatro República. Dias depois, quando – mais uma vez – foi preso junto com outras bichas “para averiguações”, um policial que havia assistido ao filme “Madam Satan”, de Cecil B. de Mille, o reconheceu na hora:

Não foi você que se fantasiou de Madame Satã e ganhou o desfile das bichas no República esse ano?”

João não fazia a menor ideia do que era aquilo e detestou o apelido. Mas apesar disso (ou por causa disso), logo todos o chamavam assim e a dualidade própria do termo acabou lhe agradando. “Madame Satã” é como passaria a ser conhecido. Em 1942 repetiria o sucesso com outra fantasia.

Lázaro Ramos como Madame Satã no Carnaval de 1942

Lázaro Ramos como Madame Satã no Carnaval de 1942 (Foto: Divulgação)

Já antes disso Satã começou a sossegar. Acabou casando com uma mulher aos 34 anos, embora nunca deixasse de se afirmar homossexual. Até o fim de sua vida, aos 76 anos, manteve o matrimônio. Com ela criou seis filhos, todos adotivos, e se orgulhava de ser um bom pai. Em uma entrevista, como exemplo, citou que uma filha havia se tornado musicista (professora de acordeão), um filho havia se tornado soldado e outro… delegado de polícia!

Seu mito se tornou tão forte que na década de 80 seu apelido batizou uma famosa casa noturna de São Paulo, em funcionamento até hoje. E sua vida foi tema de um filme estrelado por Lázaro Ramos, de grande sucesso. Pode-se dizer que por fim conseguiu criar um personagem artístico, embora não exatamente da forma como tinha sonhado.

 

Manduca da Praia

Manoel Alves da Silva, o Manduca da Praia…

Foi muito antes da abolição que os capoeiristas individualmente ou em maltas, perturbaram e aterrorizaram a sociedade carioca.

Os maltas eram usadas indiscriminadamente em rixas de políticos de diferentes facções. As duas principais eram os Nagôs e os Guaiamus, ele não participava de nenhuma, pois tinha uma banca de peixe e fazia segurança de pessoas ilustres e achava que atrapalharia seus negócios. Um capoeirista famoso conhecido por toda população do Rio de Janeiro foi o Manduca da Praia, homem de negócios, respondeu a 27 processos por ferimentos graves e leves, sendo absolvido em todos eles pela sua influência pessoal e de amigos.

Era pardo claro, alto, reforçado, usava barba grisalha. Sua figura inspirava temores para uns e confiança para outros. Vestia-se com decência, chapéu na cabeça, usava um relógio que era preso por uma corrente de ouro, casaco grosso e comprido que impressionava as pessoas com seu porte, usava como arma uma bengala de cana-da-índia e a ele deviam respeito.

Certa vez na festa da Penha brigou com um grupo de romeiros armados de pau, ao final da briga deixou alguns inutilizados e outros estendidos no chão, entre outras brigas e confusões. Ganhava bastante dinheiro, seu trabalho era uma banca de peixe que tinha no mercado, vivia com regalias e finais de semana saía para as noitadas.

No entanto, o episódio que rendeu mais fama a Manduca da Praia foi uma luta com um deputado português chamado Santana, homem que se destacava por sua força e por ser exímio lutador de pau. Santana, tendo chegado à cidade, ouviu falar de Manduca da Praia e decidiu desafiá-lo para um combate, já que era conhecido por não recuar diante de qualquer adversário. Manduca foi o campeão, deixando Santana impressionado com sua habilidade, e conta-se que os dois saíram abraçados e foram beber juntos, tendo tornado-se amigos a partir de então.


 


História

A vida de Waldemar como capoeirista e mestre de capoeira começa na década de 1940, onde ele implanta um barracão na invasão do Corta-Braço, futuro bairro da Liberdade, onde joga-se capoeira todos os domingos, também ensinando na rampa do mercado na cidade baixa. Praticava uma diversidade de capoeira, dos mais lentos aos mais combativos, com afirmada preferência para os mais lentos.

Durante a década de 1950, a capoeira dele na Liberdade atrai acadêmicos, artistas e jornalistas. Os etnólogos Anthony Leeds em 1950 e Simone Dreyfus em 1955 gravam o som dos berimbaus. O escultor Mário Cravo e o pintor Carybé, também capoeiristas, frequentam o barracão. Mais tarde, a maior parte dos renomados capoeiristas afirmam ter grande influência na capoeira de Waldemar, na de Mestre Cobrinha Verde do bairro de Nordeste de Amaralina até na de Mestre Bimba.

De acordo com Albano Marinho de Oliveira (1956), o grupo da Liberdade começou a cantar longos solos antes do jogo (hoje chamados ladainhas). O próprio Waldemar reivindicou, em depoimento a Kay Shaffer, ter inventado de pintar o berimbau. A fabricação e venda para os turistas de berimbau foi uma fonte de renda para mestre Waldemar.

Waldemar, como bom capoeirista, andou na sombra. Ficou discreto sobre suas atividades e breve em sua fala. Mal existem fotos dele antes de velho. Não procurou a fama e, apesar de seu notado talento de cantor e de tocador de berimbau, não integrou muito o mercado de espetáculo turístico. Também, a música que se escuta nas gravações de 1951 e 1955 é coletiva, sempre tendo, ao menos, um dialogo de dois berimbaus.

Velho e impossibilitado de jogar capoeira e de tocar berimbau pela doença de Parkinson, Waldemar ainda aproveitou um pouco do movimento de resgate das tradições dos anos 1980, cantando em diversas ocasiões e gravando CD com Mestre Canjiquinha.

Na Bahia existem um bairro e uma rua que recebem seu nome.

 

Besouro Mangangá: o bamba da capoeira

Besouro Mangangá: o bamba da capoeira

Por: Letícia Vidor de Sousa Reis

Manuel Henrique Pereira, conhecido por Besouro, Besouro Preto, Besouro Mangangá ou Besouro Cordão de Ouro é atualmente considerado como um mito no meio da capoeiragem. Nasceu em 1895 na cidade de Santo Amaro da Purificação (BA). Lá nasceram também artistas famosos, como Caetano Veloso e Maria Bethânia. Filho de João Martins Pereira e Maria Auta Pereira, ambos africanos escravizados, aprendeu capoeira com Mestre Alípio, também africano escravizado, que o batizou como Besouro Mangangá (um gênero de besouro venenoso).

De acordo com a tradição oral (uma das principais fontes históricas da capoeira), este nome de capoeira lhe foi dado porque, quando se via cercado de policiais, ele “desaparecia”. Nas rodas de capoeira, Besouro até hoje é lembrado, por meio de muitas cantigas, como, por exemplo: Besouro Mangangá/era homem de corpo fechado/Bala não matava navalha /não lhe feria/Sentado ao pé da cruz/quando a polícia lhe seguia/desaparecia/enquanto o tenente dizia/Cadê o Besouro?/Chamado Cordão de Ouro? (Autoria: Fanho)….

 

Em 5 de abril de 1889, nascia Vicente Ferreira Pastinha, responsável pela difusão da Capoeira Angola, bem como pela reunião e organização dos princípios e fundamentos de um dos maiores símbolos da cultura brasileira.

Filho do espanhol José Señor Pastinha e da baiana Eugênia Maria de Carvalho, nasceu na Rua do Tijolo em Salvador, Bahia.

Na virada do século XIX para o século XX, Pastinha foi apresentado à capoeira, segundo ele próprio, por pura sorte. Quando tinha em torno de 10 anos, em consequência de um arenga de garotos, da qual sempre saía perdendo, conheceu Benedito, preto africano que se tornaria seu mestre.

“A minha vida de criança foi um pouquinho amarga. Encontrei um rival, um menino que era rival meu. Então, nós entrávamos em luta. E, na janela de uma casa, tinha um africano apreciando a minha luta com esse menino. Então quando acabava de brigar, que eu passava, o velho me chamava: ‘Meu filho, vem cá!’ Eu cheguei na janela e ele, então, me disse: ‘Você não pode brigar com aquele menino. Aquele menino é mais ativo do que você. Aquele menino é malandro! Você quer brigar com o menino na raça, mas não pode. O tempo que você vai pra casa empinar raia, você vem aqui pro meu cazuá.’ Então, aceitei o convite do velho, que pegava a me ensinar capoeira. Ginga pr’aqui, ginga pra lá, ginga pr’aqui, ginga pra lá, cai, levanta. Quando ele viu que eu já estava em condições pra corresponder com o menino, ele disse: ‘Você já pode brigar com o menino’. Então, eu saí. Quando eu vinha, a mãe dele via que eu ia passar, gritava: ‘Honorato, aí vem seu, camarada.’ O menino puca. De dentro de casa o menino pulava no meio da rua com o satanás. Aí, pegou a insistir e na hora que eu insisti, pum, passou a mão. Eu saí debaixo. Ele tornou a passar a mão em mim, eu tornei a sair debaixo. Ele disse: ‘Ah, você tá vivo, hein?!’ Ele insistiu a terceira vez, eu aqui rebati a mão dele e sentei-lhe os pés. Ele recebeu, caiu. Tornei a sentar o pé nele, ele tornou a cair. A mãe dele foi e disse: ‘Vê se não vai apanhar!’ Aí eu disse: ‘Vai ver ele apanhar agora!’.”

Tornou-se discípulo de Benedito e passou a frequentar sua casa todos os dias dado o grande interesse que a capoeira tinha conseguido despertar nele. Pastinha aprendeu além das técnicas, a mandinga. Benedito ensinou-lhe tudo o que sabia.

Durante esse período, o menino Pastinha também frequentava o Liceu de Artes e Ofício, onde aprendeu entre outras coisas a arte da pintura. Em 1902, Pastinha entrou para e escola de aprendizes marinheiros, onde passaria oito anos de sua vida. Na Marinha, praticou esgrima (treinou com espada e florete) e estudou música (violão), ao mesmo tempo em que ensinava capoeira a seus companheiros.

Em 1910, aos 21 anos, pede baixa da corporação. De lá já sai como professor de capoeira, atividade a qual decide se dedicar. Nesse período, tinha que ministrar suas aulas às escondidas na sua própria casa, pois a capoeira figurava no Código Penal como atividade proibida, com sujeição a pena de prisão de dois a seis meses, sendo esse período dobrado no caso dos “chefes ou cabeças”.

Foi exatamente o endurecimento da repressão à capoeira que levou Mestre Pastinha a interromper suas aulas. Entre os 1913 e 1934, teve que trabalhar de pintor, pedreiro, entregador de jornais e até tomou conta de casa de jogos.

Em 1941, Pastinha foi convidado por seu antigo aluno, Raimundo Aberrê, a assisti-lo na roda de capoeira da Jinjibirra (Gengibirra). Lá, de acordo com o próprio Pastinha, lhe aguardava uma surpresa:

“No Jinjibirra, tinha um grupo de capoeirista, só tinha mestre, os maiores mestres daqui da Bahia. O Aberrê me convidou pra eu ir assistir a ele jogar, num dia de domingo. Quando eu cheguei lá, ele procurou o dono da capoeira, que era o Amorzinho, que era um guarda civil. Chamou o Amorzinho, o Amorzinho no aperto da minha mão foi e entregou a capoeira pra eu tomar conta, dizendo: Há muito que o esperava para lhe entregar esta capoeira para o senhor mestrar’. Eu ainda tentei me esquivar, me desculpando, porém, tomando a palavra o Sr. Antônio Maré disse-me: ‘Não há jeito, não, Pastinha, é você mesmo quem vai mestrar isto aqui’. Como os camaradas deram-me o seu apoio, aceitei.”

Assumindo a missão de organizar a Capoeira Angola e de devolver a ela seu valor e visibilidade, enfraquecidas pela emergência e popularização da Capoeira Regional, Mestre Pastinha funda o Centro Esportivo Capoeira Angola (CECA), localizado no Largo do Cruzeiro de São Francisco, a primeira escola de Capoeira Angola. Em sua academia, Pastinha adotou um uniforme com as cores de seu time do coração, onde treinou quando rapaz, o preto e o amarelo do Esporte Clube Ypiranga.

Em 1952, o CECA foi oficializado e três anos depois sua sede muda para seu endereço mais famoso: o casarão da Praça do Pelourinho, nº 19. Neste período, Pastinha já estava com 66 anos de idade.

Neste endereço, reuniam-se capoeiristas consagrados como Valdemar da Paixão, Noronha, Maré, Divino, Traíra. O CECA era uma escola de mestres, que transmitia a tradição dos angoleiros. Lá formaram-se outros grandes nomes da capoeira, como Curió, Albertino, Gildo Alfinete, Valdomiro, João Grande e João Pequeno.

Mestre Pastinha sempre prezou pela cordialidade entre seus alunos e pregava que os capoeiristas não deveriam apelar para a violência quando estivessem vadiando (jogando). Ao contrário, sustentava que a calma era a maior aliada do capoeira.

“É o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não descambe no excesso do vale tudo. Note bem, estou falando em sentido de demonstração, e não de desafio, porque sempre traz consequências às vezes desastrosas. Tira toda a beleza e o brilho da capoeira […]”

Para o Mestre, as pessoas costumam se admirar com a capoeira ao percebem que se trata de uma luta em que “dois camaradas jogam sem egoísmo, sem vaidade. É maravilhosa e educada.”

Mestre João Pequeno, aluno que recebeu do próprio Pastinha a missão de dar continuidade ao CECA e ao seu trabalho, resumiu bem os ensinamentos do maior de todos os angoleiros:

“O capoeirista para bater não precisa encostar o pé. Ele deve ter seu corpo freado, manejado para quando ele levar o pé e vir que o adversário não se defendeu, ele frear antes do pé encostar. Porque quem tá de parte vê que não bateu porque ele não quis. Então para bater não precisa dar pancada no adversário.”

Como reconhecimento por sua contribuição à cultura afro-brasileira, em 1966, Mestre Pastinha realizou o seu sonho de conhecer a África ao representar o Brasil por meio da Capoeira Angola, no 1º Festival Mundial das Artes Negras, em Dacar/Senegal. Como ele já não estava enxergando bem, consequência de uma trombose que atingiu sua visão, não chegou a vadiar em terras africanas.

Apesar desse raro momento de reconhecimento do Estado brasileiro da importância de Pastinha, o Velho Mestre trabalhou e empenhou-se pelo crescimento da Capoeira Angola quase sempre sem qualquer apoio ou incentivo dos órgãos públicos. Ao contrário disso, em 1971, foi vítima do processo de gentrificação (higienização social) que se deu no Pelourinho, local que começava a ser visado pela especulação imobiliária dado o forte apelo turístico do lugar.

Obrigado pela Prefeitura de Salvador a se retirar do casarão, que entraria em processo de restauração, sob a promessa de retornar ao fim desse, Pastinha viu-se forçado a se mudar e nunca mais pôde voltar à famosa sede do CECA, que deu lugar a um restaurante do SENAC.

Segundo Mestre Curió, aluno de Pastinha, com muita resistência deram um espaço para a academia na Ladeira do Ferrão, conhecida como Ladeira do Mijo.

Com esse ato de destrato e desconsideração, Mestre Pastinha entrou em depressão e teve uma forte piora de sua saúde física. Pastinha viveu seus últimos dias morando num quarto escuro e úmido, na Rua Alfredo Brito n° 14, no Pelourinho. Além da terceira esposa, Maria Romélia, poucos foram os que ajudaram o Mestre.

Após esse período foi enviado para o abrigo para idosos Dom Pedro II, onde permaneceu até a sua morte. Mestre Pastinha morreu cego, quase paralítico e abandonado, no dia 13 de novembro de 1981, aos 92 anos. O Brasil perdia um dos seus maiores mestres. Não só o mestre da Capoeira Angola, mas o mestre da filosofia popular.

O grande escritor Jorge Amado, admirador de Mestre Pastinha e também um dos que lhe deram suporte em momentos difíceis de sua vida, dizia que ele não era apenas um praticante da capoeira, mas um teórico dela. Em seu livro Capoeira Angola (1965), Pastinha defendia a natureza não violenta do jogo e afirmava que a capoeira conferia dignidade, honradez e decência aos seus praticantes.

Capoeira, patrimônio cultural

A história de vida e os ensinamentos de Mestre Pastinha, junto com a de outros mestres, que tenham sido seus alunos ou não, da Capoeira Angola ou Regional, motivou outras pessoas a praticar a capoeira, que se disseminou pelo país e pelo mundo, tornando-se um dos maiores símbolos da cultura brasileira.

A complexidade e expressividade da capoeira levaram o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) a registrar a Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira como patrimônios culturais imateriais brasileiros, em 2008, estando inscritos, no Livro de Registro das Formas de Expressão e no Livro de Registro dos Saberes, respectivamente.

Seis anos depois, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) conferiu à Roda de Capoeira o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Até os dias de hoje, o nome de Mestre Pastinha é reverenciado onde quer que haja uma roda de capoeira.

 Manoel dos Reis Machado, conhecido como Mestre Bimba, foi o criador da capoeira regional, também chamada de luta regional baiana, no final da década de 1920.A partir de seus conhecimentos sobre a capoeira primitiva – capoeira Angola – e sobre a luta denominada batuque, ele foi o primeiro capoeirista de sua época a desenvolver um sistema de ensino e, também, o primeiro a dar aulas em ambiente fechado.Conquistou reconhecimento e respeito da sociedade, numa época em que a perseguição a manifestações da cultura negra era intensa.“O Bimba foi, talvez, uma das últimas figuras do ciclo heróico dos negros na Bahia. Era um negro enorme, muito forte, analfabeto. Com consciência, com uma erudição no que diz respeito a Bahia e com uma cultura sobre a gente negra inédita”, afirmou Muniz Sodré, ex-aluno e autor do livro Mestre Bimba: corpo de mandinga, em entrevista a Ancelmo Gois, no programa De lá pra cá, da TV Brasil, em 2010.

A vida de Mestre Bimba e o início na capoeira

Mestre Bimba deixou como herança o respeito da sociedade pela capoeira (Foto: Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba, EDUFBA, 2009)

Manoel dos Reis Machado nasceu no Engenho Velho de Brotas, em Salvador, no dia 23 de novembro de 1900.O apelido Bimba é fruto de uma aposta entre sua mãe e a parteira, sobre qual seria o sexo da criança. “Ganhei a aposta, o cabra tem bimba e cacho”, teria dito a parteira na hora do nascimento.O início na capoeira se deu aos 12 anos de idade, no aprendizado do batuque, luta considerada como uma das matrizes da capoeira.Seu primeiro mestre foi o africano Bentinho, capitão da Companhia de Navegação Baiana.Aos 18 anos, começou a dar aulas e, aos 27 anos, já era conhecido como Mestre Bimba.Além de capoeirista, foi carvoeiro, trapicheiro, carpinteiro e doqueiro (trabalhou em docas).Mestre Bimba cria a capoeira regionalO sentimento de que a capoeira estava perdendo suas características de luta, com golpes estilizados feitos na intenção de empolgar os espectadores, é apontado como o principal motivo que levou Bimba a desenvolver uma variante da capoeira tradicional, denominada Angola.

Mestre Bimba transformou a capoeira em uma luta com método de ensino próprio (Foto: Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba, EDUFBA, 2009)

“Em 1928, eu criei, completa, a Regional, que é o batuque misturado com a Angola, com mais golpes, uma verdadeira luta, boa para o físico e para a mente”, disse Bimba, conforme relatado no livro A saga do mestre Bimba, de Raimundo Cesar Alves.Ao longo dos anos, o baiano transformou a capoeira numa luta com método de ensino próprio, criando rituais como o batizado, a formatura e a especialização.A capoeira era trabalhada em duas vertentes: como luta de defesa pessoal e como manifestação cultural e artística.“Com a Capoeira Regional, Mestre Bimba suscitou uma nova abordagem expansionista e pedagógica da capoeira: subiu no ringue, realizou apresentações, montou academia, estabeleceu aulas regulares, lições, turmas de alunos com horários preestabelecidos e uma metodologia do ensino através das sequências e jogos diferenciados”, diz Hellio Campos (Mestre Xaréu), no livro Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba.As variações musicais do berimbau ditam o ritmo, o tipo de jogo que será feito na roda. Na capoeira regional, isso acontece por meio de sete toques criados por Mestre Bimba. São eles: São Bento Grande, Santa Maria, Banguela, Amazonas, Cavalaria, Idalina e Iúna.Capoeira: de renegada a esporte nacionalAntes de Bimba, a capoeira era ilegal e discriminada como “coisa de malandro” e de escravo “fujão”. Na década de 1930, Getúlio Vargas, em busca de apoio popular, passou a permitir a prática, apenas em ambientes fechados e com alvará da polícia.

“A capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional”, disse Getúlio Vargas, em 1953, ao presenciar apresentação de Mestre Bimba (Foto: Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba, EDUFBA, 2009)

Assim, em 1932, Mestre Bimba fundou sua primeira academia no bairro do Engenho Velho de Brotas. Essa foi, oficialmente, a primeira academia de capoeira a ter um alvará de funcionamento, datado de 1937, registrada com o nome de Centro de Cultura Física Regional.Mestre Bimba desafiou lutadores e não se soube de alguma ocasião em que tenha sido derrotado.Levou seu grupo a diversas cidades brasileiras, apresentando a capoeira baiana. Em 1949, por exemplo, realizou em São Paulo uma série de lutas, com atletas de outras modalidades.Em 1953, fez uma apresentação para o então presidente Getúlio Vargas, que estava de passagem por Salvador. Na ocasião, Vargas afirmou que “a capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional”.Na apresentação, o grupo de Bimba era formado por duas alas. A da percussão, com dois pandeiros e um berimbau – instrumento símbolo da capoeira e da Bahia –; e a dos capoeiristas, que se revezavam de dois em dois, com movimentos e coreografias encenando os golpes.A capoeira foi oficializada como prática esportiva pelo Conselho Nacional de Desportos apenas em 1972.

Mestre Bimba: representante da cultura afro-brasileira

Mestre Bimba faleceu em 1974, vítima de derrame cerebral (Foto: Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba, EDUFBA, 2009)

Em 1973, Mestre Bimba deixou a Bahia rumo a Goiânia, por motivos financeiros e por ter considerado que os “poderes públicos” não o teriam dado o devido valor.Um ano depois, em 5 de fevereiro de 1974, ele faleceu na capital goiana, vítima de um derrame cerebral, aos 73 anos.Seus familiares dizem que ele morreu por tristeza, de “banzo” – doença da nostalgia e saudade que acometia os negros escravizados.Mestre Bimba contribuiu para a difusão de manifestações culturais da Bahia, como o samba de roda e o maculelê.Deixou como herança a profissionalização, a metodologia e o respeito da sociedade pela capoeira.Por influência dele e de seus discípulos, a capoeira conquistou o Brasil e é praticada em diversos países do mundo.

Em 1996, em uma homenagem póstuma, Mestre Bimba recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia.

No mesmo ano, ganhou a maior honraria da Câmara Municipal de Salvador, a Medalha Thomé de Souza.


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